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Derrubando mitos sobre a pulverização aérea de agrotóxicos

Derrubando mitos sobre a pulverização aérea de agrotóxicos

Apesar de sofrer com o preconceito da população urbana, a aplicação aérea de defensivos foi — e ainda é — fundamental para o aumento da produção agrícola no Brasil. A primeira pulverização do tipo no país aconteceu em 1947, quando o piloto Clóvis Candiota utilizou um avião adaptado para combater um ataque severo de gafanhotos nas lavouras do Rio Grande do Sul. No ano seguinte, a piloto Ada Rogatto, funcionária do Instituto Biológico, deu início às aplicações aéreas em São Paulo, auxiliando no combate às pragas que assolavam as plantações de algodão e café no interior do estado. Seu avião, um modelo paulistinha adaptado, ganhou o apelido de “gafanhoto” por ter sido utilizado nas campanhas contra as chamadas nuvens de gafanhotos. Ada hoje é considerada uma heroína pela sua coragem e pioneirismo. Já a pulverização aérea não teve a mesma sorte: hoje é vista com desconfiança pela população — especialmente nas grandes cidades — e tida  como vilã do meio ambiente. Não deveria ser assim.

Até o final dos anos 1960, a aplicação aérea de defensivos era extremamente cara e, por isso, restrita aos casos de emergência fitossanitária. No Brasil, a atividade só se popularizou a partir dos anos 1990, com os incentivos a inovações tecnológicas da agricultura e a transformação dos latifúndios em grandes fazendas produtivas. Atualmente, quase um quarto dos agroquímicos utilizados no país é pulverizado por via aérea, sobretudo em lavouras de soja, algodão e cana-de-açúcar, que ocupam vastas extensões de terra. A demanda cada vez maior atraiu novas empresas para o segmento de aviação aeroagrícola, o que acirrou a competição e fez com que o mercado se profissionalizasse.

Esqueça os aviões adaptados, despejando produtos químicos sem qualquer tipo de controle — justamente as cenas que mais vemos atualmente na televisão. Hoje em dia, a realidade é bem diferente. As aeronaves modernas contam com equipamentos sofisticados de segurança e rastreamento, além de mecanismos automatizados de abertura e fechamento das barras pulverizadoras. Sensores conseguem verificar as condições do vento em tempo real, evitando a deriva. Todos os voos podem ser rastreados por GPS, o que possibilita que as rotas e áreas de aplicação sejam verificadas posteriormente.

As novas tecnologias simplificam o trabalho dos pilotos, reduzindo, assim, as chances de erros. Na aviação, existe um ditado que diz que o melhor piloto que existe é o automático. Isso porque, ao tirar do piloto ações que são puramente mecânicas, reforça-se a segurança da operação, já que ele pode se concentrar na condução do avião. Hoje é possível programar previamente, no escritório, as áreas de aplicação e as áreas de exclusão, onde o piloto não deve aplicar, e assim garantir que o avião não vai, mesmo que o piloto queira, pulverizar em áreas indevidas. A simples utilização de GPS e de sensores de vento reduzem quase que por completo o problema da deriva, principal alvo de reclamação por parte dos ambientalistas. Qualquer produto lançado de uma aeronave que não atinja a plantação, conforme o planejado, é considerado deriva. Na prática, essa perda se traduz em prejuízo para o produtor, já que ele provavelmente precisará pulverizar a mesma área outra vez. A deriva, portanto, não é boa para ninguém.

Para evitar problemas relacionados à pulverização indesejada de agroquímicos em áreas urbanas ou habitadas por comunidades rurais, fontes de água potável ou criações de animais, a legislação brasileira estipula uma faixa de segurança que varia de 250 a 500 metros, dependendo do caso, que deve ser respeitada pelos aviões, o que, segundo especialistas no assunto, é mais que suficiente para garantir a segurança da aplicação. Com as tecnologias atuais, a deriva dificilmente chega a 70 metros.

É sempre bom lembrar que a aplicação aérea de defensivos não é um luxo restrito aos fazendeiros ricos. Atualmente, o avião é uma ferramenta de trabalho tão importante quanto os tratores, sendo imprescindível em determinadas situações, como nos períodos chuvosos. Quem já esteve em uma fazenda sabe que, após vários dias de chuva intensa, a terra batida transforma-se em uma lama espessa, o que inviabiliza o trânsito de máquinas agrícolas. Esse é também o momento propício para o surgimento de fungos que podem comprometer a produção. Sem o avião, não há como aplicar os fungicidas necessários para o bom andamento da lavoura. Mesmo quando é possível levar o maquinário até as áreas de cultivo, o peso do trator sobre a terra úmida causa compactação do solo, o que pode levar a uma perda de até 2% na produtividade.

Existem ainda casos em que a pulverização aérea é até mais segura do que a terrestre. Nas plantações de banana, por exemplo, os pesticidas devem ser aplicados nos topos das árvores. Quando borrifado por baixo, uma parte do produto tende a cair de volta no trabalhador, o que é muito pior. Nesse caso, a melhor opção é sempre aplicar por cima — ou seja, de avião.

Mas se a pulverização aérea é tão boa, por que ela é proibida na Europa? Esse talvez seja o principal argumento utilizado pelos críticos que pedem a proibição da atividade no país, mas é facilmente explicado pela diferença entre a estrutura fundiária brasileira e a dos países europeus. Enquanto no Brasil existem fazendas gigantescas, que ocupam áreas equivalentes a cidades inteiras, na Europa, a produção agrícola é fragmentada. Por lá, as propriedades rurais são muito menores e praticamente dentro das cidades.

Apesar de todas as vantagens supracitadas, não há dúvida de que a pulverização aérea exige muitos cuidados. Não basta apenas optar por uma empresa aeroagrícola séria, com equipamentos de ponta e pilotos experientes. É preciso também conhecer as áreas onde serão aplicados os pesticidas, certificar-se de que não haverá ninguém trabalhando no local e respeitar os horários ideais de temperatura, umidade e vento. Ignorar qualquer um desses fatores pode trazer grandes dores de cabeça ao produtor.

Um dos problemas mais comuns atribuídos à pulverização aérea — e à terrestre também — é a mortandade de abelhas em solo. Uma coisa é inegável: inseticidas são feitos para matar insetos. Abelhas são insetos. Inseticidas, portanto, matam sim as abelhas. Por outro lado, também não há o menor interesse dos produtores em exterminar essas abelhas, já que elas são responsáveis pela polinização das flores e ajudam a aumentar a produtividade em campo. O fato é que a relação entre agricultores e abelhas vem de longa data e costumava ser harmoniosa até bem pouco tempo atrás, quando milhões de abelhas começaram a desaparecer misteriosamente em todo o mundo. O fenômeno, conhecido como Colony Collapse Disorder (CCD), ou síndrome do colapso das colônias, em uma tradução livre, faz com que as abelhas adultas abandonem suas colmeias e sumam sem deixar vestígios.

De acordo com pesquisadores da Embrapa responsáveis por estudar o tema no Brasil, não existe um consenso na comunidade científica sobre as causas da CCD, mas as maiores desconfianças incidem sobre novas doenças que vêm afetando as abelhas, o envenenamento por agroquímicos, a desnutrição, o alto nível de consanguinidade e o estresse. As principais suspeitas, porém, recaem sobre a Varroa destructor — um ácaro que reduz a postura de ovos pelas rainhas, induz ao nascimento de abelhas deficientes e diminui a resistência dos insetos aos pesticidas — e os inseticidas neonicotinoides, que podem causar desorientação e perda de memória nas abelhas. Centenas de estudos já foram realizados em todo o mundo e muitos outros estão em andamento neste exato momento, mas, por mais que os ambientalistas tentem te convencer do contrário, até agora não há uma resposta conclusiva para esse enigma.

Nicholas Vital - jornalista e autor do livro ‘Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo’, lançado em julho pela Editora Record.

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