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O DDT e o cafezinho

O DDT e o cafezinho

Desde os tempos de nossos avós, alimentos produzidos com agroquímicos têm sido consumidos em todo o mundo, sem qualquer sinal de epidemia. Se os pesticidas fossem realmente nocivos, como muitos acreditam, os problemas — mesmo os de longo prazo — já teriam aparecido aos milhares e esses insumos certamente já estariam banidos em todo o mundo. Não é o caso. Ao longo da história, diversos produtos altamente tóxicos foram utilizados para o controle de pragas nas lavouras. Os primeiros defensivos agrícolas traziam em suas formulações metais pesados como arsênico, selênio, mercúrio e chumbo, algo inimaginável nos dias de hoje.

O primeiro inseticida “moderno” foi também o mais polêmico de todos os tempos. O Dicloro-Difenil-Tricloroetano, popularmente conhecido como DDT, foi descoberto quase que por acaso pelo estudante alemão Othmar Zeidler, em 1874, mas só ganhou notoriedade mais de 50 anos depois, já nos anos 1930, quando o suíço Paul Hermann Müller, químico da empresa J. R. Geigy, iniciou um trabalho em busca de um produto que resolvesse o problema das traças das roupas. Em uma de suas experiências, ele sintetizou o DDT e passou a testar a substância em insetos que mantinha dentro de caixas em seu laboratório. Ao notar que o produto era altamente eficiente contra os mais variados tipos de moscas, Müller aprofundou a pesquisa e descobriu que o DDT também era eficaz no controle do besouro do Colorado, uma praga que assolava a agricultura suíça na época. Em 1939, o produto foi patenteado e passou a ser amplamente utilizado nas lavouras, com resultados muito satisfatórios.

O DDT se popularizou e passou a ser utilizado para a proteção de cultivos em todo o mundo. O seu uso, no entanto, não ficou restrito à agricultura. A substância, que não é mais utilizada no Brasil desde os anos 1980, também já foi fundamental para o controle de pestes nos centros urbanos. A sua casa, muito provavelmente, já passou por um processo de “DeDeTização”. Produtos à base de DDT também foram borrifados diretamente nas cabeças de milhões de crianças para combater piolhos até o início da década de 1970. No Brasil, era comum as mães lavarem os cabelos de seus filhos com o pesticida e deixarem o produto agindo por longos períodos. Hoje sabemos que tal tipo de exposição não é recomendável, mas, ainda assim, esses jovens não se transformaram em monstros mutantes nem desenvolveram doenças crônicas por causa disso.

Se não tivemos problemas no passado, quando os produtos eram muito mais tóxicos e os cuidados com o seu manuseio infinitamente menores, certamente não teremos problemas no futuro. Isso porque os pesticidas evoluíram muito nas últimas décadas. Para que um novo defensivo agrícola seja autorizado para uso no Brasil, é preciso que ele seja comprovadamente melhor que os disponíveis no mercado até então. Essa exigência fez com que os produtos fitossanitários se tornassem, além de mais eficientes em campo, muito mais amigáveis ao meio ambiente e seguros para o homem e os animais.

Um estudo realizado pelo engenheiro agrônomo Luiz Carlos Ferreira Lima e publicado no livro “A evolução dos produtos fitossanitários e seu uso no Brasil”, mostra uma redução considerável tanto na quantidade utilizada quanto na toxicidade dos agroquímicos vendidos no país entre 1960 e 2010. Ferreira Lima avaliou um total de 387 ingredientes ativos (131 herbicidas, 146 inseticidas/acaricidas e 110 fungicidas) que representavam cerca de 90% do volume total de agrotóxicos comercializados no país em 2010 e obteve resultados surpreendentes. O levantamento mostra que os agrotóxicos eram, em média, 160% mais tóxicos nos anos 1960.

Se nos produtos mais antigos a dose letal média, ou DL50 (quantidade necessária para matar 50% das cobaias utilizadas nos experimentos — quanto maior a DL50, menos tóxica é a substância), era de 939 mg/kg, nos defensivos mais modernos esse número sobe para 2.448 mg/kg. Se antes eram necessários 75 g de ingrediente ativo puro para matar um homem de 80 quilos, hoje em dia é preciso ingerir mais de 195 gramas. Os resultados mostram também uma redução drástica nas doses de agroquímicos utilizadas nas lavouras, consequência da maior eficiência agronômica dos produtos. No caso dos herbicidas, fundamentais para o controle de ervas daninhas, a redução chegou a 88%. Entre os fungicidas, a queda foi de 83%, enquanto o uso de inseticidas diminuiu 82% entre 1960 e 2010.

Caso você ainda considere a ingestão de resíduos de agroquímicos preocupante, deveria reavaliar o consumo de alguns produtos presentes em nosso dia a dia, como o sal de cozinha e o café, já que esses alimentos contêm substâncias químicas tão nocivas quanto as encontradas nos agroquímicos (ou seja, muito pouco nocivas). O sal de cozinha é um dos ingredientes mais tóxicos entre todos os consumidos regularmente pelo homem. Também conhecido como cloreto de sódio, o sal tem uma DL50 de 3g/kg. Uma porção de 240 gramas, portanto, pode ser suficiente para levar o corpo humano a um colapso.
O caso da cafeína pode soar ainda mais assustador. Principal ingrediente ativo do café, a cafeína tem DL50 de somente 127 mg/kg, um número extremamente baixo, comparável a substâncias temidas e banidas há anos, como o próprio DDT, que possui uma DL50 de 113 mg/kg. A ingestão de apenas 10 g de cafeína pura poderia ser letal para a maioria das pessoas. Ainda bem que ninguém bebe cafeína pura. O café é altamente diluído em água. Um expresso possui, em média, 64 miligrama de cafeína. Sendo assim, seria preciso tomar 179 xícaras para ter algum tipo de complicação.

Tudo é uma questão de percepção do risco. As pessoas sabem que cafeína em excesso faz mal? Em geral, sabem. Mas seguem apreciando a bebida de forma moderada, já que em quantidades baixas a substância, além de não fazer mal, ainda traz benefícios. Assim como a cafeína, o DDT também era diluído em água e utilizado em baixíssima concentração. Foi utilizado com sucesso no combate à malária, ajudando a salvar milhões de vidas em todo o mundo. Mais tarde, porém, quando passou a ser utilizado em lavouras distantes milhares de quilômetros dos grandes centros urbanos, o DDT se tornou vilão e acabou retirado do mercado — muito mais por preconceito do que pelos efeitos práticos, já que até hoje não existem estudos conclusivos sobre o tema.

Nicholas Vital - jornalista e autor do livro ‘Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo’, lançado em julho pela Editora Record.

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