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E se houvesse mineradoras orgânicas?

Tragédias nos assustam, nos comovem e nos causam indignação. Despertam nossa solidariedade e o nosso respeito às vítimas. Mexem com todos os nossos sentimentos em escalas tectônicas. Mas também nos estimulam a refletir e a buscar respostas para perguntas que nunca haviam sido feitas. Como essa que aparece aí em cima, no título desse artigo.

À primeira vista, parece uma pergunta tola. Mineração é uma atividade econômica tão diversa daquela à qual se dedicam os produtores orgânicos que não deve haver paralelo entre elas – além do fato de estarem diretamente ligadas ao uso da terra. Depois de algumas ponderações, no entanto, temos que admitir: é uma pergunta pertinente. Para respondê-la teremos que considerar três pontos.

Primeiro ponto: a produção orgânica é regida por um modelo de negócios muito próprio. Ele está baseado na confiabilidade e na credibilidade repassadas ao consumidor por meio do selo de certificação orgânica. Ao encontrar este selo na embalagem de um produto, o consumidor tem certeza que ele foi elaborado a partir de ingredientes saudáveis, que preservam a natureza e respeitam as relações sociais e de trabalho.

As certificadoras estão, portanto, no centro nevrálgico do setor de orgânicos. Um produtor convencional não precisa pagar pelos serviços de uma certificadora. Já o produtor orgânico o faz por obrigação – está lá na lei 10.831, de 2003, que regulamenta essa atividade no Brasil.

Quer ser orgânico? Tem que ter o selo. Quer ganhar diferencial competitivo? Tem que ser certificado! Quer ser reconhecido como um produtor que respeita o meio ambiente e entrega produtos saudáveis? Prove! Graças a esse modelo, poucos setores conseguem ostentar tamanha aura de credibilidade!

Segundo ponto: ser orgânico custa mais caro! Exige insumos diferenciados, cuidados com uso da terra, preservação dos recursos naturais, manejo inteligente das pragas, transporte e armazenamento especiais, além de uma série de outras obrigações. Por isso, produzir e comercializar orgânicos não é para amadores! A gestão de negócios tem que ser ainda mais precisa e profissional para viabilizar um empreendimento nessa área.

Apesar disso, o mercado de orgânicos está em franca expansão. No Brasil, ele está longe de alcançar os invejáveis números exibidos pelos Estados Unidos e pela Europa. Mas cresce à espantosa taxa de 20% ao ano – segundo estimativas do Organis, Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável.

Terceiro ponto: ser orgânico agrega valor! O consumidor reconhece esse valor agregado e está disposto a pagar por ele quando opta por um produto orgânico em comparação a um convencional. Muitos o fazem como um investimento nas futuras gerações – querem deixar um legado positivo. Outros o fazem para se beneficiar das vantagens nutricionais. Seja como for, quem consome orgânico o faz de causa pensada.

Muito bem, agora que refletimos sobre esses três pontos, vamos nos arriscar a uma resposta para a questão levantada nesse artigo, supondo é claro que a indústria da mineração seguisse um modelo de negócios similar ao do setor de orgânicos.

Se houvesse mineradoras orgânicas elas seriam todas certificadas. Teriam que ostentar um selo garantido por uma certificadora especializada e devidamente acreditada. Seus produtos custariam um pouco mais caro, é verdade – mas nada impossível de se resolver com uma boa gestão de negócios. Elas teriam muito mais valor aos olhos dos seus clientes finais e do grande público, pois seriam obrigadas a adotar práticas socioambientais muito mais rígidas.

Talvez elas nem fossem chamadas de mineradoras orgânicas. Talvez, operando com foco mais ambiental, trabalhariam em silêncio, sem nem sequer despertar a atenção do grande público. Mas será que mesmo elas estariam mais preparadas para evitar tragédias como as de Mariana e Brumadinho?

Essa é uma pergunta que queremos deixar no ar, juntamente com os nossos mais profundos sentimentos de pesar e a nossa manifestação de solidariedade a todos os que trabalham para recompor suas vidas e superar suas perdas.

Fabio Belik - fabio@organis.org.br

Organis - Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável Projetos Especiais

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