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Fake news científico: o caso do leite materno contaminado por agrotóxicos

Fake news científico: o caso do leite materno contaminado por agrotóxicos

Não é de hoje que pessoas mal intencionadas se aproveitam do desconhecimento da população em relação a determinados temas para propagar informações falsas. Isso acontece na política, no mundo dos negócios e também na ciência. São as famosas fake news. Notícias sensacionalistas e com forte apelo junto ao público, que, repetidas à exaustão, se tornam verdades absolutas. Um exemplo clássico de fake news científico é a lenda da contaminação do leite materno por agrotóxicos na cidade de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, um dos principais polos produtores de soja do país.

Um estudo divulgado em 2011, sob a chancela da Universidade Federal de Mato Grosso, dizia ter encontrado substâncias químicas utilizadas na agricultura em 100% das nutrizes do município. De autoria da bióloga Danielly Palma, o documento afirmava que em algumas amostras foram encontrados até seis tipos diferentes de agrotóxicos, alguns de uso proibido no Brasil há mais de uma década, como o DDT e o DDE. Um prato cheio para qualquer jornalista.

O material, que na realidade não era um estudo científico, mas sim uma tese de mestrado, foi amplamente divulgado para a imprensa brasileira. O assunto gerou comoção e logo ganhou as manchetes dos jornais locais. Poucos dias depois, a pauta chegou ao Bom Dia Brasil, da Rede Globo, que fez uma matéria comovente sobre a aflição dessas mães. “Recebi a notícia de que meu bebê estava tomando leite com veneno, foi um choque. Perguntei para o médico o que eu tinha que fazer, e ele não soube me explicar”, afirmou uma das nutrizes à reportagem. Teria sido uma denúncia grave, uma matéria de grande utilidade pública, não fosse um pequeno detalhe: tratava-se de um trabalho tendencioso e de cunho ideológico, com problemas sérios de metodologia e questionado pela comunidade científica. Puro fake news.

Fundador da Sociedade Brasileira de Química e responsável pela criação do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde, órgão vinculado à Fundação Oswaldo Cruz, Eduardo Peixoto foi convidado a fazer uma análise técnica do trabalho, de forma isenta e com rigor científico, em uma audiência pública realizada na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados em julho de 2012. De acordo com o especialista, o material apresentava muitas inconsistências: do número de amostras, apenas 62, à metodologia aplicada pelos pesquisadores.

De acordo com o especialista, a Organização Mundial de Saúde estabeleceu, em 1984, uma dose diária aceitável de DDT e derivados. A soma deles pode ser de até 6 mil partes por bilhão no leite, uma quantidade relativamente é alta, mas que foi estabelecida pela OMS considerando que a contaminação em todo mundo era de tal ordem que isso se tornava uma coisa óbvia a ser feita, porque, neste nível, não tem nenhuma influência no ser humano. Em bom português, não há uma correlação direta entre essa concentração e algum problema de saúde.

O pseusdo-estudo também apresentava inúmeros problemas técnicos, como o fato de ter analisado somente a gordura presente no leite, que representa menos de 4% do volume total, o que muda completamente os critérios de análise. Outra falha metodológica séria apontada por Peixoto foi o não seguimento dos parâmetros pré-estabelecidos. “Calibrou-se para ele (DDT) ser detectado em um intervalo aparente de 107 a 153 partes por bilhão, mas, na realidade, ele foi detectado com valores até 9 mil. Quer dizer, eu estipulo o intervalo de medida e meço fora do intervalo. Isso, tecnicamente, não é aceitável”, diz.

Segundo Eduardo Peixoto, também existem muitas contradições no trabalho, como a falta de relação entre o DDT e o seu produto de decomposição, o DDE. “A concentração de DDT decai no organismo numa velocidade média de 10 a 15% ao ano. Ou seja, para reduzir à metade o DDT que está no organismo são necessários dez anos. Se eu encontrar uma grande quantidade de DDT, quer dizer que a contaminação foi recente, não teve tempo de degradar. Se eu encontrar somente DDE, é um pouco estranho, ainda mais se a concentração for alta, porque deveria ter DDT junto.” O “estudo” da UFMT encontrou resíduos de DDE em 18 amostras e o de DDT em apenas três delas.

E as falhas não param por aí. Também não está claro como o leite materno foi coletado, quem o transportou, nem quem analisou todas essas etapas para mostrar que não houve contaminação. “Minha conclusão é que o excesso de incertezas introduzidas inviabilizam estimativa, precisão e exatidão dos valores analíticos que foram obtidos. Infelizmente, os resultados não podem ser confiáveis nem podemos retirar conclusões práticas dele”, conclui.

Diante de tantas controvérsias, decidi procurar a reitora da Universidade Federal do Mato Grosso. Eu queria saber a posição da UFMT em relação ao trabalho e se a reitoria tinha conhecimento dos problemas metodológicos contidos no estudo. Eu também queria entender melhor a situação do professor Wanderlei Pignati, coordenador do trabalho, que além de lecionar na UFMT é um notório apoiador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Não haveria um conflito de interesses? Em vão. Por meio de sua assessoria de imprensa, a reitoria disse que “não se pronunciaria a respeito do assunto e que os assuntos científicos são tratados diretamente com os pesquisadores”. A recomendação: falar com o próprio Pignati. Foi o que fiz.

Logo no primeiro contato, ao saber que seria questionado sobre as supostas falhas na metodologia do trabalho, Pignati passou a desqualificar os críticos, afirmando que todos eles trabalhavam para as indústrias de agroquímicos. Argumentei que o meu objetivo era somente fazer uma avaliação independente e pedi os resultados da pesquisa. Apesar de muito nervoso, disse que me mandaria as informações técnicas no dia seguinte. Quase três anos depois, sigo aguardando o envio do material.

Com erros metodológicos ou não, a mensagem que ficou para a população é a de que o leite materno está contaminado por agrotóxicos. É a notícia ruim que vende. Até por isso, não há o interesse da imprensa em investigar o caso a fundo. Nesses casos, o outro lado raramente é ouvido — e quando é, acaba retratado como vilão da história. Como no Brasil, infelizmente, a maioria da população acredita em tudo o que vê na televisão, o caso do leite materno se transformou em uma verdade absoluta. Viva o fake news.

Nicholas Vital - jornalista e autor do livro ‘Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo’, lançado em julho pela Editora Record.

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